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Rasto de Sangue #2

O restaurante passara a ser mais um bar, com alguns pratos rápidos, ao longo do tempo. Desde que a mãe de Beth morrera, uma cozinheira de mão cheia, o seu pai, o Sr. Miller, tinha deixado de confecionar grandes pratos de outrora.
Beth entrou no salão, dirigindo-se atrás do balcão. Estavam com bastante clientela, e Rachel e Marcie, as empregadas de mesa, estavam ambas atarefadas com os pedidos.
- Tudo certo? - Perguntou o Sr. Miller.
- Sim. Sabes que o John raramente comete erros.
O Sr. Miller sorriu.
- Ele deve ter uma opinião diferente, em relação a um certo aspeto.
Beth olhou-o, semicerrando os olhos felinos, com os lábios a desenharem uma fina linha.
- Porque é que toda a gente decidiu meter-se na minha vida?
O Sr. Miller olhou a filha.
- Não estou a meter-me. - Tal como Claude, ele nascera e crescera no Louisiana. Encostou-se ao balcão e cruzou os braços. - Só... Bem, foi uma forma de mudar de assunto.
- Para quê? - Beth conhecia muito bem aquele tom de voz. Sabia que o pai estava prestes a fazer-lhe algum tipo de revelação estonteante.
- Falei com o John. Estou velho, Beth, sabes disso.
- 55 anos não é ser-se velho. - Rosnou Beth.
- Sim, sim... Mas quero descanço. Não quero deixar-te isto tudo ás costas, pensei que...
- Nem penses em fazer do Ryan o meu sócio! - Explodiu Beth. - Adoro o meu irmão, sabes disso, mas o Ryan não percebe nada que não tenha a ver com carros! Ele só percebe de motores, mamas e rabos! Nisso é profissional!
Ryan era mecânico e, para além disso, pouco sabia fazer e nunca mostrara interesse em gerir o negócio do pai. No entanto, passava algumas horas sentado ao balcão, estudando formas de engate com que atacava as raparigas que apareciam, a fim de as levar para a cama.
O Sr. Miller sorriu, assentindo com a cabeça.
- Eu sei. Por isso mesmo é que decidi que o John viria trabalhar contigo. Ele anda cansado da distribuição, apesar de adorar aquilo, mas seria uma grande ajuda para ti. Além disso, o homem é inteligente. E forte. Consegue carregar caixas, já que eu nem empurrá-las pareço conseguir.
O pensamento de Beth perdera-se e nem chegara a ouvir a frase até ao fim. Desde quando o pai entregava o negócio a uma pessoa de fora? Mesmo que essa pessoa fosse o delicioso, sexy e deslumbrante John?
- O quê? - Disse Beth.

 

De braços cruzados, Beth estava plenamente ciente da presença de John, sentado ao seu lado, numa das cadeiras em frente á secretária do escritório. Do outro lado, sentava-se o Sr.Miller, falando e olhando os dois, como se fossem crianças. Beth sentiu o toque do joelho de John no seu, quando este se mexeu para pegar numa folha.
Bufou de impaciência. Ela gostava de John, sim, afinal eram amigos, mas tê-lo como patrão? Agora é que os planos de casamento iam parar de ser apenas ideias ditas da boca para fora. As velhotas, e as cuscas das vizinhas, iam dar gritos de prazer quando soubessem da novidade, que eles seriam colegas de trabalho. Beth desconfiava mesmo que, algumas delas, já se divertiam sozinhas á custa de John.
O telefone tocou e ela estendeu a mão, levando o aparelho ao ouvido.
- "Maltese", boa tarde, fala a Beth. - Disse, esperando resposta do outro lado.
Beth escutou um som estranho, algo estrangulado e molhado, como uma partida de Halloween. Mas estavam em pleno Verão.
- Sim? - Perguntou. - Em que posso ser útil?
Os olhos de John estreitaram-se quando ele franziu o sobrolho, Beth encolheu os ombros, escutando o mesmo som sinistro do outro lado. Irritada, novamente, Beth desligou o telefone.
- Quem era? - Perguntou-lhe o pai.
- Não sei. Não disseram nada. - Beth esfregou a testa, fechando os olhos. - Explica-me lá outra vez o porquê disto tudo?
O Sr. Miller suspirou.
- Beth, é o...
O telemóvel de Beth tocou, e esta retirou-o do bolso, vendo tratar-se de Ryan.
- Sim? - E esperou, mas nada ouviu, a não ser o mesmo som macabro. - Ryan? Ryan para já com a brincadeira, estamos a meio de uma reunião importante! Tem juízo!
Mas o som continuava e Beth sentio um arrepio no corpo.
- Ryan? - Chamou.
No meio do tom molhado, Beth pareceu distinguir uma palavra, quase soprada pelo esforço.
Levantou-se de um pulo e saiu do escritório. Escutou o pai e John atrás de si, enquanto se dirigia ao carro.
- Beth! - Gritou o pai.
- É o Ryan! - Gritou Beth, entrando no carro. - Tenho de ir. Espera-me aqui!
Assim que saiu do parque de estacionamento, Beth conduziu que nem louca em direção a casa. Ryan estava de folga, de certeza que aproveitaria o dia para dormir. Viu o sinal passar a vermelho, mas não parou nem abrandou, pagaria a multa se isso lhe permitisse ter a certeza de que o irmão estava bem.
Parou o carro á porta de casa, saindo a correr em direção á porta da entrada, deixando o carro aberto. Levou a mão aos bolsos e soltou um grito de frustração.
- O que foi?
Beth gritou de susto e olhou para trás, vendo John colado a si, e só nesse momento se apercebeu de que ele a seguira.
- Esqueci-me das chaves! - Disse, em pânico. - O Ryan está aqui, o jipe dele está no lugar de sempre! Eu juro, John, era ele ao telefone!
John olhou em volta.
- Tens tudo trancado?
- Sim. Saí a correr, duvido que ele tenha aberto uma janela que fosse.
John puxou Beth para trás, respirou fundo e lançou-se sobre a porta, fazendo-a voar para dentro da sala.
Tudo estava calmo, contudo Beth sentiu um cheiro estranho no ar.
A casa era antiga, com divisões espaçosas, e mais do que aquelas que Beth poderia usar. Ela correu para o quarto de Ryan, no piso superior, encontrando-o num desalinho, mas vazio.
- Beth! - Chamou John do andar de baixo.
Beth desceu as escadas e parou junto do amigo, que se encontrava junto da porta das traseiras. A porta vidrada estava no chão, partida. As cadeiras jaziam no chão, como cadáveres pálidos e imóveis. A rapariga dirigiu-se á sala de jantar, seguindo a barafunda de tapetes, decoração e mobiliário no chão.
A porta, encostada, abriu-se sem esforço e Beth olhou para o interior, soltando um grito medonho, capaz de acordar todos os mortos do mundo.

 

Rasto de Sangue#1

2 comentários

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    Lêh 24.08.2016 15:09

    Obrigada
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