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Conversas Paralelas #4

Há entrevistas que adoramos fazer, e outras que, só por si são maravilhosas. Esta foi uma delas, e por isso mesmo agradeço ao Sr. Solitário pela maravilhosa entrevista que deu ao blog.

Olá a todos. Sou o Sr. Solitário, Sol para os amigos, tenho 30 anos e sou um nortenho, precisamente do distrito de Aveiro.
Aceitei prontamente este convite que a Lêh tão amavelmente me propôs para dar a conhecer ainda mais sobre mim nestas conversas paralelas.
 
Lêh : Porquê o nome Sr. Solitário?
 
Sr. Solitário: Já algum tempo que quis criar um blog, um espaço onde pudesse desabafar muitos dos meus sentimentos e pensamentos. O problema era saber que nome lhe iria dar. Pensei em muitos, nomeadamente: "Diário de um homossexual"; "Páginas de uma vida"; "Pre[conceito]", entre outros.
Porém, o problema mantinha-se, pois não sabia que nome teria a assinatura dos posts.
Então, numa das minhas caminhadas, onde a minha imaginação vagueia para muito longe, surgiu-me o nome de Mr. Lonely porque, como muitas vezes já referi, sinto-me muito sozinho. Mas como eu sou um pouco contra os estrangeirismos, ficou o Sr. Solitário.
 
Lêh: Tens saudades de ser criança?
 
Sr. Solitário: Muitas! Quem as não tem? Contudo, confesso que as minhas saudades são tantas que muitas vezes chegam a doer... Posso te dizer que por vezes penso que estou preso a um passado onde fui muito feliz e onde as minhas preocupações eram simplesmente se fazia calor suficiente para poder ir nadar para o rio.
Trocava alguns anos da minha vida adulta por um só dia da minha infância.
 
Lêh: Qual foi o teu maior arrependimento?
 
Sr. Solitário: Arrependo-me de tantas coisas! Se o arrependimento matasse eu já estaria morto há muito tempo.
Essencialmente, e como a pergunta e concreta, o meu maior arrependimento é, sem dúvida, ter-me envolvido com algumas pessoas que nunca mereceram qualquer gesto de carinho que lhes dei. Falo de desgostos amorosos que tive e dos quais tenho ainda marcas profundas, uma delas é uma cicatriz num braço.
 
Lêh: Como foi perceber que eras gay?
 
Sr. Solitário: Foi um processo muito difícil. Quem lê o meu blog diariamente sabe que eu vivo numa meio rural, onde os costumes e tradições são regra. Um homem tem que se casar com uma mulher e ter filhos, é a lei da vida, e quem a quebrar não é aceite por Deus.
Ora eu sempre cresci com essa lei imposta, ouvindo que teria de arranjar uma mulher, que tardava em chegar, quando eu próprio sonhava e imaginava ser mulher para poder casar e ter filhos com um homem.
A minha cabeça era uma confusão e um turbilhão de pensamentos e sentimentos, na altura não havia tanta informação como há agora.
Certo dia, a minha curiosidade foi mais forte, e decidi entrar num chat gay. Conheci um rapaz, que esclareceu todas as minha dúvidas e fez-me entender muitas coisas das quais eu não entendia. Despertou o meu lado gay que sempre quis esconder à força toda por temer represálias.
A partir desse dia, conheci mais rapazes, fiz mais amizades neste meio e as coisas foram acontecendo naturalmente. Hoje não me arrependo de nada.
 
Lêh: Escreves muito sobre bullying, e eu sei muito bem do que falas, mas ainda sentes o peso da palavra, ou superaste completamente?
 
Sr. Solitário: Eu penso que nunca se supera o bullying. Carrego todos os dias o peso dessa palavra e todos os dias esse peso é mais difícil de carregar, como uma faca que espeta no coração cada vez mais fundo.
Tornei-me numa pessoa mais agressiva, tenho desejos de vingança, queria tanto fazê-los pagar pelo que me fizeram. Sei que alimentar esse ódio não me faz bem, esses agressores continuam a vida deles como se nada tivesse acontecido, aliás eles é que são os maiores, eu é que era um inferior.
Nunca vou lembrar a escola como uma coisa boa. Cada vez que penso nisso, com ela vêm todas as agressões por acréscimo. Nunca fui bom aluno e sei que tinha muitas capacidades para isso, mas nunca fui bom aluno porque a escola era um inferno para mim.
Concluí o 9º ano à mingua, por pouco não reprovei. Mas hoje, sinto-me como um ignorante que nem sabe fazer uma conta de dividir sem a máquina de calcular. Por isso mesmo é que aproveito todas as formações que me oferecem e sou sempre um dos melhores alunos, sempre com 19 e 20 nos testes para que, de alguma forma, possa fazer ver nem que seja a mim próprio que tenho capacidades para o estudo.
 
Lêh: Consideras-te um sonhador?
 
Sr. Solitário: Sim, sem dúvida. Eu uso e abuso dos sonhos. Nos meus sonhos sou um cantor, um ator, apresentador de televisão, uma estrela, um escritor, um jornalista. Em todos os meus sonhos sou uma pessoa de sucesso, para compensar a inutilidade que sinto.
 
Lêh: Qual o teu destino de sonho?
 
Sr. Solitário: Eu não gosto muito de viajar, sou muito apegado à minha casa, às minhas coisas, à minha família.
Nunca saí de Portugal, já fui até ao Algarve mas voltei logo no dia a seguir pois não aguentava as saudades. Fico nostálgico e só me apetece chorar e voltar para o colo da minha mãe, um colo em que eu já não caibo, mas que está sempre disponível para mim.
Gostava de conhecer Paris e Londres, mas algo me diz que irei ficar só pelo desejo.
 
Lêh: Uma coisa que nunca farias.
 
Sr. Solitário: Essa é uma pergunta difícil de responder. No passado dizia tantas coisas que nunca faria e acabei por fazê-las.
Contudo, pensando bem, nunca seria capaz de abandonar a minha mãe. Seria capaz de abandonar a minha vida para me dedicar inteiramente a ela.
 
Lêh: Define-te numa palavra.
 
Sr. Solitário: Genuíno.
 
Lêh: Um conselho para quem passou pelo mesmo que tu.
 
Sr. Solitário: Nunca se calem, NUNCA!! Digam a toda a gente o que vos estão a fazer sofrer, gritem se for preciso. Batam o pé, digam BASTA!
Contem aos vossos pais, irmãos, tios, primos, aos professores, aos amigos, às funcionárias, a desconhecidos, ao cão, ao gato, ao periquito, seja a quem for! Mas falem, acusem, não se calem e não deixem que esses agressores vos pisem mais.
Força.
 
Mais uma vez, obrigada Sol. pela entrevista.
 

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