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Rasto de Sangue #4

Ao aproximar-se da mesa, Beth olhou a mulher, que estava distraída e, também, porque queria adiar ao máximo o encontro dos seus olhos com os do homem de negro.
A mulher, loira platinada, de pele bronzeada e perfeita e olhos azuis como o céu, tinha os lábios carnudos pintados de um tom chamativo de vermelho. Os olhos apresentavam um perfeito risco negro, complementado com sombras brilhantes, perfeitamente conseguidas. As suas unhas, de gel e longas, tinham o mesmo tom dos lábios. No corpo trazia um vestido justo, vermelho e nos pés uns sapatos de salto alto, pretos.
Beth não viu aliança no dedo, apenas jóias de aspeto caro mas, assim que a mulher balançou o cabelo, puxando-o todo sobre o ombro esquerdo, Beth teve um bele vislumbre de uma marca no pescoço. O homem de negro não faria aquilo, disso tinha a certeza, pelo que a mulher só poderia ter uma profissão...
Com relutância, Beth olhou o homem, vendo os seus olhos negros e fundos, presos em si. Fez o seu melhor sorriso.
- Boa noite. O que vão tomar? - Perguntou com voz cristalina.
- Vinho. - Disse o homem. Voz forte, educada e com um ligeiro sotaque que Beth não conseguiu identificar. - O vosso melhor vinho. Tinto, de preferência.
Como a mulher se manteve calada e sorridente, Beth deixou a mesa, educadamente, e dirigiu-se ao balcão. John já retirara a garrafa do frio, colocando tudo em cima de um tabuleiro em cima do balcão.
- Mas que raio?! - Disse ele em voz baixa, quando Beth se aproximou.
- Ela é acompanhante. - Disse Beth, entre dentes, enquanto pegava no tabuleiro fingindo que estava tudo normal.
John ergueu o olhar para a mulher e Beth parou a meio do movimento, fitando o amigo. Fez uma careta e depois pegou num guardanapo, que atirou á cara dele. John olhou-a, interrogativo.
- Estavas a babar-te! - Disse ela, afastando-se.
John sorriu e continuou o seu trabalho, observando a mesa.
Beth colocou os copos em cima da mesa e serviu o vinho. Quando se preparava para voltar ao balcão, o homem chamou-a.
- Preciso de uma informação. - Disse ele olhando-a.
Beth encarou-o, olhando-o da forma mais natural que conseguiu, esperando a pergunta. Mas o que poderia, alguém como ele, querer saber?
- Estou á procura de uma pessoa. Um rapaz. - Os seus olhos pareciam querer abrir buracos na cabeça de Beth. - Um homem, na verdade. Trinta anos, no máximo.
- Tem um nome? - Perguntou Beth, sentindo um arrepio.
O homem pareceu pensar antes de responder.
- Ryan Miller.
O mundo de Beth caiu-lhe aos pés. O que aquele homem quereria de Ryan? e porque não sabia que ele estava morto? Beth tentou normalizar a sua expressão, mas notou algo no olhar do estranho homem.
- Conhece? - Perguntou ele.
Parecia um tigre, pronto a atacar.
- Hum sim, mas...
- Ele conhece-me, falamos várias vezes. - Disse ele. - Não tenciono fazer-lhe mal algum, longe de mim tal coisa, mas ele tem algo que me pertence. Sabe onde posso encontrá-lo?
As perguntas fervilhavam na mente de Beth, mas ela tentou alhear-se.
- Sim. - Respondeu por fim, escutando uma voz que lhe dizia para não revelar o seu parentesco com Ryan. Ainda. - Está no cemitério.
Uma ruga apareceu na pele marmórea do rosto do homem, mesmo entre os olhos, mas desapareceu no minuto seguinte. Ele silênciou por um minuto e depois suspirou.
- Não tinha conhecimento desse facto. - Ele fez um som com a boca. - Lamento imenso, menina, já que o conhecia. É uma pena, uma pena. Um rapaz tão competente... Suponho que não saiba quem são os seus pais? Ou alguém com quem vivesse?
Beth mordeu o lábio antes de responder. O coração batia descompassadamente no seu peito. Reparou que a mulher levara a mão ao decote assim que o nome de Ryan fora pronunciado. Soube, de imediato, que ela já tinha estado nos braços do seu irmão. Estremeceu.
- Ele... Era meu irmão. - Respirou fundo. - Qualquer assunto, é comigo. - Beth queria o pai longe daquele homem sinistro.
Os olhos do homem arregalaram-se, com as sobrancelhas quase a tocarem a linha do cabelo. A mulher olhou para Beth, avaliando-a.
- Ora, que bela coincidência, senhora...
- Beth.
O homem sorriu.
- Beth. Interessante. - Estendeu-lhe a mão. - Chamo-me Eric. - Ele apertou a mão de Beth com força e depois continuou a sorrir enquanto falava. - Peço desculpa aparecer num momento inoportuno, mas desconhecia completamente a morte do Miller. O seu irmão tem algo que me pertence, uma coisita de nada, mas como deve compreender, quero-a de volta. Gostaria de contar consigo para a reaver.
Beth estudou o homem, mas sabia que não havia saída.
- Do que se trata? - Perguntou, derrotada.
- Uma caixa. Uma caixa negra com um simbolo desenhado a ouro. - Os olhos dele brilharam. - Uma águia.
Beth balançou a cabeça.
- Nunca vi tal objeto. Mas posso procurar em casa dele. Mas só poderei entregar-lha amanhã... Se a encontrar.
Os olhos de Eric brilharam. Beth reparou, pela primeira vez, que Eric não era tão magro como parecia. Era musculado o suficiente para agradar, isso notava-se no peito sob a camisa, e o seu sorriso até era sedutor.
- Vai encontrá-la. - Disse ele. - O seu irmão tem-na, ela pertence-me. Se não a encontrar... Vai ter de trabalhar para mim... Até repor o valor da caixa.
Beth ficou imóvel, olhando-o nos olhos, percebendo o tipo de trabalho que teria de fazer, enquanto a mulher parecia chocada.
Eric sorriu.
- Só que a caixa já tem mais valor do que apenas o monetário. Tem um valor sentimental. - Sorriu ainda mais, triunfante.
Beth sentiu o ar abandoná-la, enquanto era preenchida por uma onda de ansiedade e pânico.