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A Substituta - Cap. 1

Atravessei a rua, de braços cruzados firmemente sobre o peito, com o intuito de os manter quentes. Estava uma brisa fresca, tipica daquela hora já tardia, e eu não tinha levado casaco. Poderia ter ido de carro para o trabalho, assim não teria de voltar para casa a pé, mas caminhar fazia-me bem, permitia-me pensar sem me tornar um perigo na estrada.

Trabalho num bar, uma coisa pequena, onde atendemos, na grande maioria, camionistas, os homens que bebem de manhã á noite e as mulheres da cidade que adoram tagarelar sobre assuntos que não lhes dizem respeito.

O meu patrão, Don, nunca quis transformar aquilo num restaurante ou num bar da moda. Preferiu ter um espaço acolhedor, onde todos pudessem entrar e passar um bom bocado. Mas, longe do conhecimento dos clientes, Don mantinha um taco de basebol e uma arma escondidos junto do balcão. Só para prevenir.

Retirei a chave de casa do bolso e abri a porta. Mika, a minha gata "azul", miou, exigindo atenção e reclamando pela minha demora.

- Sabes que se não trabalhar, nós duas não comemos. - Disse-lhe, enquanto tirava os ténis e seguia na direção da cozinha.

Enchi o prato da Mika e depois abri o frigorifico, resgatando um recipiente com massa, que sobrara do almoço. Nem me dei ao trabalho de aquecer, comendo-o mesmo assim. Mas depressa parei, ficando perdida em pensamentos.

Sentia-me vigiada, como se alguém seguisse todos os meus passos. Resfoleguei. Deveriam ser consequências do acidente. Tivera um acidente de carro,  um ano antes, e tivera de ser operada. Na minha cabeça, escondida por baixo do cabelo, estava a minha cicatriz que comprovava o sucedido. Desde aí, quando tivera alta do hospital, que me sentia vigiada. Mas deveria estar apenas paranoica.

Bateram á porta, assustando-me. Olhei o relógio. Três da manhã.

- Mas que raio... - Resmunguei, caminhando na direção da porta.

Abri, pronta a protestar pelo incómodo, quando dei de caras com o meu vizinho. O meu vizinho lindo de morrer... mas assustador como o raio.

Era alto, com ombros largos e uma constituição fisica invejável. Tinha olhos tão azuis que pareciam feitos de gelo, lábios apetitosos e cabelos negros, impecavelmente despenteados. Naquela noite, vestia apenas um fato de treino, que deixava visiveis todas as curvas do seu corpo.

- Que queres, Jace? - Perguntei.

Apesar de lindo, a nossa relação nunca fora muito amigável.

Jace olhou-me.

- Começa a fechar a janela á tua gata, porque da próxima vez, faço um churrasco.

Revirei os olhos.

- A gata precisa de liberdade, Jace. É um gata, é impossivel dar-lhe ordens.

Mirou-me com aquele olhar gélido.

- Irei lembrar-me de ter uma conversa com ela quando a apanhar novamente em cima do meu carro. - Respondeu. - Mas armado!

E saiu da minha porta, dirigindo-se á casa do lado.

Fiquei a vê-lo afastar-se e sorri.

- Só se for armado em parvo. - Respondi e entrei em casa, fechando a porta e dando mimos á minha gata, por ela adorar atormentar o vizinho.